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O invento que mudou a dieta do sertão

Fonte: El País, por Beatriz Jucá – https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-07-17/o-invento-que-mudou-a-dieta-do-sertao.html

Com o avanço do acesso básico à água de beber, o programa brasileiro de cisternas evoluiu, gerando a possibilidade de manter uma pequena produção no meio da seca. Até a dieta mudou e veio mais renda, agora ameaçada pela pandemia

Loudizete de Almeida Farias enfia um copo de vidro no pote de barro encostado na parede da cozinha e o exibe como se fosse um trunfo. “Isso aqui é que é água de verdade. Olha como é branquinha. E nem tem gosto de sal”, diz, chacoalhando o copo segundos antes de tomar um longo gole para amenizar a sede em meio ao calor de mais de 35 graus que faz numa manhã de novembro de 2019 em Jericó, um pequeno vilarejo da cidade cearense de Pedra Branca, onde ela vive com o marido e a filha, a cerca de 260 quilômetros de Fortaleza.

A água “branquinha” que Lourdizete agora põe no copo foi aparada da chuva, armazenada na cisterna e tratada com o hipoclorito distribuído pela secretaria municipal de saúde. “A gente hoje tem água boa, mas nunca pode esquecer o sacrifício que sempre foi. Tem que cuidar bem da cisterna”, ela diz. E lembra da infância, quando os pais agricultores acordavam ela e os irmãos às duas da madrugada para andar vários quilômetros até o rio e esperar que juntasse água numa cacimba cavada sob o leito rachado. “Eu passava a noite brigando com cururu pra poder ter água de beber”, conta, se referindo aos incontáveis sapos que saltavam naquela água.

Loudizete tem 49 anos. Cresceu num mundo em que, quando a água findava e o legume não segurava, só se podia comer uma vez por dia. Não viveu o tempo de seus avós, quando as grandes secas empurravam famílias inteiras rumo às estradas, caminhando a pé em busca de qualquer recurso que os permitisse escapar da fome. Mas viu os açudes, olhos d’água e barreiros evaporarem cada vez mais rápido ao longo dos anos e carregou muita lata na cabeça para buscar água de tanques abastecidos pelos emergenciais carros-pipa do Governo — reservatórios que secavam rápido não pela evaporação, mas pela “precisão” no sertão.

“O meu maior sonho era ter uma cisterna na minha casa”, conta. Antes que Loudizete conseguisse juntar os 3.500 reais necessários para construí-la sozinha, soube que existia uma política federal, se cadastrou e, um ano depois da inscrição, ganhou a tecnologia. O inverno seguinte, de 2013, foi tão bom que a cisterna ‘sangrou. “Parecia um sonho. Eu chamo de potinho de ouro. Não tem preço saber que você tem aquilo e que, na hora que precisar, é só ir lá com seu baldinho tirar água”, diz. Ela lembra que, naquele inverno, ficou horas observando aquela água relativamente cristalina, diferente da água avermelhada que pegava dos barreiros. E de repetir, incrédula, uma pergunta para si mesma: “Então isso é que é água de verdade? Água sem gosto de sal e de raiz?”.

“O espinafre a gente só conhecia mesmo do filme do Popeye. Eu fui descobrindo que tinha outras verduras saudáveis e que dava pra plantar no quintal. Agora a gente tem essa fartura em casa”.

Mas o gosto mesmo de ter acesso à água Loudizete foi descobrir três anos depois, quando ganhou a cisterna de segunda água, uma evolução do programa federal para a construção de um reservatório de 56.000 litros de água para a produção agrícola. A alimentação, antes restrita aos grãos estocados e à plantação de batata doce e jerimum, ganhou mais diversidade com estímulo dos quintais produtivos, pequenos canteiros de legumes e hortaliças no quintal de casa. Foi quando Loudizete comeu produtos como espinafre e berinjela pela primeira vez. “O espinafre a gente só conhecia mesmo do filme do Popeye. Eu fui descobrindo que tinha outras verduras saudáveis e que dava pra plantar no quintal. Agora a gente tem essa fartura em casa”, diz. É que essa cisterna maior, com métodos de captação diferentes da água de beber, é o pontapé inicial para alcançar o que há décadas soaria inimaginável: manter uma produção regular de legumes e hortaliças mesmo nos meses de seca. “A de beber foi meu primeiro amor, mas a cisterna de segunda água foi o que revolucionou a minha vida”, diz Lourdizete.

Contemplada com a cisterna de segunda água, um benefício que prioriza famílias sem renda fixa, chefiada por mulheres e sem acesso a outras fontes de água perto de casa, Loudizete iniciou, junto com outras quatro famílias da comunidade, cursos de formação com as entidades da sociedade civil executoras do programa — uma importante chave de êxito do programa. Ali, ela foi aprendendo a diversificar a plantação de frutas, legumes e hortaliças em canteiros organizados no quintal de casa. Descobriu que colocar os galhos secos da caatinga nas raízes das plantações pode desacelerar a evaporação da água (e assim economizá-la). E que abandonar os venenos e usar defensivos naturais, usando em todo o processo produtivo apenas produtos da natureza, melhoraria a qualidade de seu produto. A mucunã, uma raiz que no sertão só se comia quando já não havia mais nada pra “escapar da fome”, ganhou um novo significado: agora é cultivada para fertilizar aquelas terras. Uma nova palavra entrou para o vocabulário do sertão: agroecologia.

“A cabeça agora funciona melhor. A gente aprendeu a produzir, mas aí veio outro problema: vamos vender os produtos pra quem? Meus vizinhos não vão comprar”, diz Loudizete. A lógica da cisterna de segunda água é produzir para o consumo familiar e vender o excedente. Nos últimos anos, os agricultores do semiárido têm se organizado com o apoio das entidades executoras do projeto Cisternas em feiras agroecológicas, com valor agregado dos seus produtos orgânicos. “A gente tem o desafio de produzir e o de ensinar o povo a comer. Então eu diversifico a plantação e já passo a receita também pro pessoal aprender a comer meus produtos. Tô o tempo todo estudando”, explica. O acesso à água se converteu também em uma fonte extra: além dos programas de transferência de renda ou aposentadoria, as famílias que cultivam seus quintais produtivos conseguem em média 600 reais com a venda dos produtos. Uma conquista que vem sendo afetada pela crise do coronavírus, já que as feiras foram paralisadas pela necessidade do distanciamento social durante a pandemia.

“Foi uma mudança radical na minha vida. Nem nos piores sonhos pensei nisso. É como se tivesse parado a vida da gente”, diz Loudizete. A proibição das aglomerações encerraram a feira onde ela vendia o que planta no quintal de casa duas vezes por semana, e a renda conseguida com ela caiu em um terço. A sorte é que conseguiu escoar parte da produção com alguns clientes cativos de quando a feira estava funcionando e para os quais ela envia diretamente frutas e legumes. “Nao é 100%, mas pelo menos o prejuízo não é total”, ela diz. “Continuo produzindo. Trabalho pra não ficar o tempo todo pensando se esse vírus vai passar, se vai chegar uma vacina”, emenda.A cabeça agora funciona melhor. A gente aprendeu a produzir, mas aí veio outro problema: vamos vender os produtos pra quem? Meus vizinhos não vão comprar.

A família de Loudizete é uma das 202.481 que atualmente têm acesso à cisterna de segunda água —seja por recursos do Governo ou de entidades internacionais. O caminho para a universalização ainda é longo. Apenas 20% dessa demanda no semiárido foi atendida nos últimos 12 anos e, no atual contexto político brasileiro, o futuro do programa vive um verdadeiro limbo. O Governo Bolsonaro, por meio da Lei Geral de Acesso à Informação, diz apenas que o papel do programa continua sendo o de garantir a universalização do acesso à água. O EL PAÍS também procurou o Ministério da Cidadania, atualmente responsável pelo programa, mas não obteve respostas sobre o futuro do programa e as metas de construção específica da cisterna para produzir.

O Congresso Nacional está discutindo um plano emergencial para agricultores familiares, que prevê um abono e algumas estratégias. Mas, apesar das reivindicações de entidades da sociedade civil, o projeto de lei não garante a construção de cisternas, embora autorize a construção delas e de outras tecnologias sociais. “O que a gente queria era que o acesso à água fosse mais explícito neste programa emergencial. No semiárido, a gente tem que pensar no acesso à água para beber, mas também para produzir”, explica Valquíria Lima, da coordenação nacional da Associação do Semiárido Brasileiro (ASA).

Seja como for, as cisternas têm dado alguma segurança às famílias rurais da região mais árida do país durante a crise do coronavírus. “É uma bênção divina que num momento como esse tenha tido um inverno tão bom como o deste ano. Encheu cisterna e açude. Se fosse a seca que teve de anos atrás junto com um vírus desse, a gente não suportaria”, diz Loudizete. Mas sem reservatórios para armazenar a água, a chuva não garante alimento e renda o ano inteiro. É preciso políticas públicas que garantam segurança alimentar no campo e ações de convivência no semiárido. Mais de 700.000 famílias ainda estão na fila para conseguir uma cisterna para produzir, segundo a ASA. Sem chuvas regulares todo ano nem reservatórios e a garantia de abastecimento emergencial do Governo nos anos de seca, o sertanejo tem que quebrar a cabeça para “fazer água”.

“Eu me acostumei a ficar o tempo todo observando o volume de água que ainda tem na minha cisterna. Todo ano, eu compro dois ou três pipas pra completar a cisterna”, explica Loudizete. Um carregamento de cerca de 8.000 litros de água nesses caminhões custa em média 100 reais. Em períodos extremos de seca, o Exército coordena um abastecimento emergencial, mas nunca houve um plano efetivo que garantisse o acesso regular a essa água a todas as famílias no semiárido. “Chegou a hora de pensar em como aumentar esse armazenamento, a construir cisternas maiores e aumentar o investimento. Só que para isso existem algumas premissas: aceitar que existe esse fator externo de redução de chuvas e incerteza, aceitar que existe a mudança climática. Uma coisa que o nosso Governo já nem admite”, afirma o pesquisador Flávio Eiró, da Universidade Radboud (Holanda).

Essa reportagem é parte da série de publicações produzidas como resultado da Bolsa de Jornalismo de Soluções, da Fundação Gabo e Solutions Journalism Network graças ao apoio da Tinker Foundation, instituições que promovem este jornalismo na América Latina.

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